quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Ensaio Sobre a Cegueira


Ensaio sobre a Cegueira é uma obra de José Saramago que me surpreendeu pela sua originalidade (ou realidade).

Tal como o próprio título, este livro é um ensaio sobre o homem e as relações humanas num mundo afetado por uma cegueira coletiva.

Sem razão aparente, o mundo é atingido por uma pandemia, a cegueira branca, e os homens organizam-se para sobreviver no meio do caos.

Os humanos afetados são enclausurados num antigo manicómio. Grupos de indivíduos formam-se para tirar proveito e vantagem da situação. Algumas pessoas guiadas pela esposa do médico, a única personagem que consegue ver, tentam escapar às amarras impostas por um grupo totalitário.

É uma ficção sobre uma cegueira apocalíptica que pode ser facilmente transportada para a realidade como o relato de qualquer ser humano a tentar sobreviver à pandemia Covid 19, ao tsunami de 2004 ou ao furacão Katrina em Nova Orleães.

Por vezes os comportamentos humanos reduzem-se a instintos básicos de sobrevivência como no livro de William Golding “O Deus das Moscas”.

Este livro é uma sátira à sociedade e como os seus valores podem ser facilmente relegados…

Mas no meio do caos ainda haverá a centelha da esperança?

 

Ricardo Silva
(Presidente da Associação de Pais da EBSRebordosa)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

PRÉMIO CAMÕES 2024

 ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. 
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.



Adélia Prado
(Poetisa, Professora, Filósofa, Romancista e Contista, ligada ao Modernismo.
Considerada a maior Poetisa viva do Brasil) 


Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento e o pensamento encontra palavras.
Robert Frost

(Publicação de  Maria Manuel Guedes)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

O Papalagui

 

Espelho meu, espelho meu…

Tão simples que até uma criança o poderá compreender. O Papalagui, livro publicado em 1910 pelo escritor alemão Erich Scheurmann (Hamburgo, 1878 -Armsfeld, 1957), oferece-nos uma apreciação fascinante e atualíssima da civilização ocidental sob a perspetiva de uma mente despida de preconceitos e intimamente ligada àquilo que verdadeiramente deve assumir o protagonismo nas nossas vidas.

Estruturada segundo a forma de uma breve coleção de discursos proferidos pelo chefe de uma tribo samoana que visitou uma cidade ocidental, este pequeno livrinho destaca, contudo, o paradoxo em que todos vivemos: temos demasiado do que não precisamos, lutamos por um conceito falso de felicidade, vivendo permanentemente infelizes e insatisfeitos a olhar com inveja por cima do ombro ou para os lados, porque apenas ambicionamos o que ainda não comprámos. E para quê? De que necessitamos verdadeiramente para viver em harmonia connosco e com o mundo? Em que valores assenta a nossa sociedade? Seremos, afinal, assim tão civilizados e evoluídos? Estas são algumas das questões com as quais nos depararemos ao “ouvirmos” os discursos partilhados generosamente pelo chefe de tribo de Tuiavii de Tiavéa aos seus conterrâneos.

Testemunhos da vida do Homem Branco europeu, tão simples e caricatos que “nós, homens brancos e esclarecidos”, como refere o autor, seremos obrigados a sorrir e depois a refletir sobre a bizarria e vacuidade de muitos dos nossos comportamentos diários. Ilustrado com imagens cativantes muito próximas das de uma banda desenhada, a edição da Antígona de O Papalagui lê-se naturalmente com curiosidade e agrado, num instante, é certo, mas nunca mais se esquece.

Natália Pinto
Docente de Português
(Coordenadora do Plano Cultural de Escola)
 (Responsável pela Revista do AEVilela)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

A Amiga Genial


Este livro marcou-me porque, apresenta personagens complexos e realistas, especialmente Lila e Elena, cuja amizade oferece uma rica exploração das dinâmicas humanas.

Ferrante utiliza uma prosa envolvente e poética, que cativa o leitor e o faz mergulhar na história e nas emoções das personagens.

"A Amiga Genial "é o primeiro livro da quadrilogia "Napolitana", escrita pela autora italiana

Elena Ferrante. A narrativa se passa em Nápoles, Itália, e acompanha a amizade entre duas mulheres, Elena Greco e Raffaella Cerullo, desde a infância até a vida adulta.

O romance começa com Elena, a narradora, refletindo sobre sua amizade intensa e complexa com Raffaella, também conhecida como "Lila". Ambas cresceram num bairro operário de Nápoles na década de 1950, enfrentando as dificuldades e as dinâmicas sociais da época. Enquanto Elena é uma aluna aplicada e sonha com um futuro distante do seu ambiente, Lila é uma personalidade mais rebelde, que luta contra as limitações impostas pela sua família e pela sociedade.

A história explora temas como a amizade, a rivalidade, a luta pela identidade, a condição feminina e as mudanças sociais e políticas da Itália pós-guerra. À medida que as protagonistas se tornam adultas, suas vidas tomam caminhos distintos, mas a conexão entre elas permanece forte, refletindo as complexidades e as tensões que caracterizam a relação.

"A Amiga Genial" é, assim, uma obra profunda que retrata não apenas a amizade entre duas mulheres, mas também as nuances de classe, gênero e cultura em um período de grandes transformações. A escrita de Ferrante é intensa e envolvente, capturando a essência das emoções e das experiências humanas.

Carmen Teixeira Miranda
Docente de Matemática 
(Coordenadora do Departamento de Matemática e Ciências Experimentais)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O Vendedor de Felicidade

 


Será que a felicidade pode ser comprada?

Pergunta pertinente a exigir outra: quem a vende e onde?

Para saber a resposta é só ler o livro O Vendedor de Felicidade de Davide Calì e Ilustração de Marco Somà.

Não faltam compradores! Pois, a felicidade muito importante na nossa vida!

Esta obra aborda o conceito da busca pela felicidade como um bem ou serviço que todos desejam, mas que, na verdade, é subjetivo e pessoal. A felicidade, como tema central, é apresentada de forma delicada, sugerindo que ela não é um produto padronizado, mas algo que depende das experiências, escolhas e perspetivas de cada indivíduo. Procure o livro numa das nossas bibliotecas e encante-se!

Gracinda Moreira
Docente de Português 
(Professora Bibliotecária)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Eichmann em Jerusalém – Um Relato Sobre a Banalidade do Mal


É sempre possível concordar ou discordar de uma narrativa, sem que isso nos faça demarcar ou rever em tudo, não nos deixando ir por ondas de arrasto. Deixo duas sugestões de leitura da filósofa alemã, Hannah Arendt. Dois textos no âmbito da filosofia política, com reflexões sobre o comportamento instrumentalizado do cidadão nos regimes totalitaristas. “As Origens do Totalitarismo”, um livro em que a autora analisa as origens históricas e os pontos comuns dos principais regimes totalitários do séc. XX. “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal”, com base no julgamento de Adolf Eichmann, funcionário colaborador do regime nazi, responsável pela logística dos transportes de prisioneiros. Nestes textos, com os factos e reflexões que a autora reporta ao processo de Eichmann, em artigos para a revista “The New Yorker”, é abordado um dos mais mediáticos julgamentos de um colaborador do regime nazi. Segundo a autora, no decorrer do processo vai surgindo o rosto do " comum funcionário burocrata, não revelador do monstro sanguinário"; que todos esperavam ver. Aí é problematizada o conceito:"banalidade do mal";. Com a reflexão filosófica de base, Hannah Arendt analisa a possibilidade de um Estado igualar a violência, ao exercício comum do cumprimento de um papel burocrático. Questão que se torna o centro da obra, com os pontos de confluência das responsabilidades ética e legal, de um cidadão que, na sua defesa em tribunal, alegava ter praticado uma ação conforme a ordem legal vigente. Neste seu testemunho enraizado nos factos, com uma visão abrangente e de expectável controvérsia, a autora deixa-nos pano de fundo para uma reflexão mais séria sobre atos de violência que se escondem por trás de um cumprimento cego sob o jugo de uma autoridade. Um alerta para os perigos da massificação da opinião pública, como consequência da ausência de pensamento crítico. Um apelo à memória e responsabilidade coletivas, em relação ao que se vai tornando presente. Um cenário de esperança, também, num apelo implícito ao reforço de um sistema de ensino atento à formação de cidadãos esclarecidos, informados, interventivos e críticos. As obras trazem-nos uma realidade bem mais complexa do que o binómio bem/mal. Além disso, as nuances das cores com que se pinta parecem depender da forma como se consegue ver e analisar os factos, na busca de uma visão imparcial e crítica, com a consciência da complexidade das interações humanas e da responsabilidade moral do sujeito.

https://youtu.be/06jufTlnFbU?si=KjXrrX9Jl0NHAmU4

Paula Ribeiro
Docente de Filosofia
(Coordenadora do Departamento de Ciência Sociais e Humanas)

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Os Irmãos Karamazov

 

Aquele livro que, profundamente, me marcou, desde a primeira vez que o tive e li, num só volume, na edição do Círculo de Leitores (1981), foi Os Irmãos Karamazov de Dostoievski.
Aquele que termina assim:
“[...]
– Com certeza, Ressuscitaremos, tornaremos a ver- nos, para contar uns aos outros tudo quanto se passou – respondeu Aliocha, meio a rir, meio sério.
– Há-de ser bom! Disse Kolia.
– E agora, já falamos demais. Vamos ao repasto fúnebre. Não se preocupem com o facto de comermos filhoses. É uma velha tradição que tem o seu lado de aceitável – volveu Aliocha, sorridente. – E agora vamos de mão dada.
– E sempre assim, toda a vida de mão dada! Hurra por Karamazov! – insistiu Kolia, entusiasmado. E todos os pequenos repetiram as aclamações.”
Disse Janko Lavrin (“Dostoievski”. Círculo-Leitores: 2003:7):
“Se considerarmos que uma das funções da Arte é alargar e aprofundar a nossa recepção da realidade, do homem e da vida, não podemos hesitar em colocar Dostoievski como artista ao nível de um Shakespeare. Dificilmente encontraremos outro autor, cuja necessidade de revelar os segredos da consciência humana com todos os seus medos, contradições e conflitos dramáticos seja tão impetuosa como a de Dostoievski [...]”
Tinha 15, 16 anos quando esbarrei (é o termo) com os vários livros dele que havia lá por casa dos meus pais: Crime e Castigo, Os Possessos, Está Morta, Noites Brancas, Humilhados e Ofendidos, Pobre Gente, Recordações da Casa dos Mortos, Notas do Submundo e O Idiota, que me chamou a atenção, que não li, mas que quero ler.
Os Irmãos Karamazov foi a maior revelação, para mim (nessa altura e para sempre) da Literatura.
E esquecendo Ivan (o meu preferido dos 3 “Irmãos Karamazov” e, com ele, “O Inquisidor-Mor”), e Dmitri (o outro lado do homem – ou da vida), fixemos aqui o epílogo do romance – esse final extraordinário, luminoso, paradoxal – juntando-nos a Aliocha, no enterro de Iliucha:
“[...] Karamazov – perguntou Kolia –, é verdade o que diz a religião, que nós ressuscitamos de entre os mortos, que tornaremos a ver-nos uns aos outros e todos a Iliucha?
– Com certeza. Ressuscitaremos, tornaremos a ver-nos, para contar uns aos outros tudo o que se passou – respondeu Aliocha, meio a rir, meio a sério.
– Há-de ser bom – disse Kolia.
– E agora, já falámos demais. Vamos ao repasto fúnebre. Não se preocupem com o facto de comermos filhoses. É uma velha tradição que tem o seu lado aceitável – volveu Aliocha, sorridente. – E agora vamos de mão dada.
– E sempre assim, toda a vida, de mão dada” Hurra por Karamazov! – insistiu Kolia, entusiasmado. E todos os pequenos repetiram as aclamações.”
Ou, se preferirem, outro final – o de Notas de Submundo, com uma “verdade” que tomo como (quase) minha:
“[...] Deixem-nos sem livros e ficaremos de imediato perdidos e confusos. Não sabemos ao que nos juntar, ao que nos agarrar, o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Estamos oprimidos por sermos homens – homens com um verdadeiro corpo individual e verdadeiro sangue, temos vergonha disso, pensamos que é uma desgraça e tentamos chegar a ser uma espécie de homem generalizado e impossível (…). Em breve, tentaremos de alguma forma nascer de uma ideia. Mas basta. Não quero escrever mais do «Submundo».”
Esquecendo, por momentos, toda a bravata de Trumps e chapéus de Melanies, pondo entre parênteses bagagens e arrudas, façamos um minuto de silêncio e recordemos Fédor Dostoievski ouvindo Hipólito Kirilovich, no “seu canto do cisne”, a interpretação dessas vozes diferentes, mas conjugadas – interpretadas em pleno tribunal:
“ – Que é pois esta família Karamazov, que alcançou de súbito tão triste celebridade? Talvez eu exagere, mas afigura-se-me que ela resume certos traços fundamentais da nossa sociedade
contemporânea, em estado microscópico (…). Vejam este velho libertino, este “pai de família” que morreu infaustamente (…). Completa ausência de sentido moral, inextinguível sede de viver. Além dos prazeres sensuais, mais nada existe, eis o que ele ensina aos filhos (…). Vejamos os filhos deste homem (…) Ivan é um rapaz moderno, bastante instruído e inteligente, que não acredita em nada e já renegou muitas coisas, como o pai (…) Segundo ele, tudo é permitido (…). O mais novo, ainda adolescente, é piedoso e modesto. Ao inverso da doutrina sinistra do irmão, tende para os «princípios populistas», ou o que assim se chama em certos meios intelectuais. (…) Encarna, parece-me, inconscientemente, o desespero fatal que leva muitos jovens da nossa infeliz sociedade (por medo do cinismo corruptor e porque atribuem, sem razão, todos os nossos males à cultura ocidental), a regressar, como eles designam, ao «torrão natal» e a lançar-se, por assim dizer, nos braços da terra mãe (…). O primogénito desta família está no banco dos réus As suas aventuras desenrolam-se diante de nós. Chegou a hora de tudo aparecer em pleno dia. Ao inverso dos irmãos (um ocidentalista e outro populista), este representa a Rússia no estado natural (…). Há em nós uma aliança espantosa do bem e do mal…”
Assim, de facto, inscrevi, na minha juventude, esta “marca” para a vida que vai ressurgindo, em formas diferentes, em dias sucessivos de anos diversos, mas que se tornou símbolo forte para mim:
Dostoievski – marca maior da literatura, um dos maiores génios, dentro do “meu” cânon Universal: Dostoievski, Shakespeare, Camões, Fernando Pessoa, Cervantes, Proust e Borges (sem qualquer tipo de ordem).
Dostoievski morreu (fisicamente) no dia 9 de Fevereiro, do ano de 1881, mas permanecerá, profundamente como se esta citação de Noites Brancas surgisse para explicar o que senti
“Meu Deus! Um instante de completa felicidade não basta já para uma vida inteira?”

Paula Castelo Branco
Docente de Português
(Coordenadora do Departamento de Línguas)