sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Memórias do Cárcere

 

Memórias do Cárcere, publicado em 1862, é uma das obras mais marcantes da faceta autobiográfica e jornalística de Camilo Castelo Branco. Escrito no tempo recorde de 40 dias, o livro relata o período de um ano (entre outubro de 1860 e outubro de 1861) em que o autor esteve preso na Cadeia da Relação do Porto. O motivo da prisão foi o mediático processo por adultério e rapto que o envolveu a ele e ao seu grande amor, Ana Plácido. 

Um documento humano de denúncia social e reflexão psicológica.

Camilo descreve as péssimas e miseráveis condiçções de vida da Cadeia da Relação. Longe da visão idealizada dos romances, o autor retrata as celas sobrelotadas, as doenças, a falta de higiene e o abandono humano. Denuncia o facto de a prisão oitocentista servir apenas como um "depósito de suspeitos" que ali ficavam amontoados a aguardar julgamento durante anos, sem quaisquer condições básicas de dignidade. 

Centrado no seu próprio sofrimento, e parafraseando Teixeira  de Pascoaes: “Ninguém, depois de Job, se queixou tanto de Deus e de si mesmo, como Camilo.”, explora a dor, a angústia e a humilhação social que sofreu. 

O livro funciona quase como uma reportagem, em que o escritor ouve e reproduz as histórias de vida e os crimes de quem com ele partilha o espaço: parricidas, falsários e infanticidas e inclui a convivência com o famoso salteador Zé do Telhado. Narra também as duas visitas que o rei D.Pedro V  fez à cadeia e o impacto que isso teve no ânimo dos presos.

Camilo ataca a justiça pesada, arbitrária e desigual do século XIX.  O autor satiriza e critica ferozmente a moral puritana da sociedade da época, que preferia encarcerar e punir dois amantes por "crime contra a moral familiar" enquanto ignorava crimes sociais muito mais graves e protegia os abusos de poder das elites. 

“Amor de Perdição” nasce aqui entre quatro paredes não impedindo a criação febril do escritor.

A obra foi adaptada para o cinema “Memórias do Cárcere “  realizado por Sérgio Graciano, com produção de Paulo Branco e da Leopardo Filmes. A longa-metragem tem a sua estreia nacional agendada para o dia 22 de outubro de 2026, integrando também a competição do prestigiado Festival Internacional de Cinema de Tóquio. 

 

Filmada integralmente no Porto — a cidade que marcou a vida e a obra do autor .

 “O Porto é a cidade de Camilo. Está nas suas novelas, como nos Lusíadas o mar, e o Adão na Bíblia.” 

Teixeira de Pascoaes

 Blandina Santos

(Assistente Técnica)

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