Memórias do Cárcere,
publicado em 1862, é uma das obras mais marcantes da
faceta autobiográfica e jornalística de Camilo Castelo Branco.
Escrito no tempo recorde de 40 dias, o livro relata o período de um ano (entre
outubro de 1860 e outubro de 1861) em que o autor esteve preso na Cadeia da Relação do Porto. O motivo da prisão foi o
mediático processo por adultério
e rapto que o
envolveu a ele e ao seu grande amor, Ana
Plácido.
Um documento humano de denúncia social e reflexão
psicológica.
Camilo descreve as péssimas e miseráveis condiçções de vida da Cadeia da
Relação. Longe da visão idealizada dos romances, o autor retrata as celas
sobrelotadas, as doenças, a falta de higiene e o abandono humano. Denuncia o
facto de a prisão oitocentista servir apenas como um "depósito de
suspeitos" que ali ficavam amontoados a aguardar julgamento durante anos,
sem quaisquer condições básicas de dignidade.
Centrado no seu próprio sofrimento, e parafraseando Teixeira de
Pascoaes: “Ninguém, depois de Job, se queixou tanto de Deus e de si mesmo, como
Camilo.”, explora a dor, a angústia e a humilhação social que sofreu.
O livro funciona quase como uma reportagem, em que o escritor ouve e
reproduz as histórias de vida e os crimes de quem com ele partilha o espaço:
parricidas, falsários e infanticidas e inclui a convivência com o famoso
salteador Zé do Telhado. Narra também as duas visitas que o rei D.Pedro V
fez à cadeia e o impacto que isso teve no ânimo dos presos.
Camilo ataca a justiça pesada, arbitrária e desigual do século XIX. O
autor satiriza e critica ferozmente a moral puritana da sociedade da época, que
preferia encarcerar e punir dois amantes por "crime contra a moral
familiar" enquanto ignorava crimes sociais muito mais graves e protegia os
abusos de poder das elites.
“Amor de Perdição” nasce aqui entre quatro paredes não impedindo a criação
febril do escritor.
A obra foi adaptada para o cinema “Memórias do Cárcere “ realizado por Sérgio Graciano,
com produção de Paulo
Branco e da Leopardo Filmes.
A longa-metragem tem a sua estreia nacional agendada para o dia 22 de outubro de 2026, integrando também a competição do
prestigiado Festival Internacional de Cinema de
Tóquio.
Filmada integralmente no Porto — a cidade que marcou a
vida e a obra do autor .
“O Porto é a cidade de Camilo. Está nas suas
novelas, como nos Lusíadas o mar, e o Adão
na Bíblia.”
Teixeira de Pascoaes

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