O Jogo do Reverso Pequenos Equívocos
Sem Importância é um livro de contos de Antonio Tabucchi, escritor
italiano que, em 2004, adquiriu a nacionalidade portuguesa, tal era a sua
paixão por Portugal e por Fernando Pessoa, de quem foi crítico e tradutor. Esta
sua ligação à terra lusa e à cultura lusófona torna-se, desde logo, uma
evidência. Com efeito, nestes contos, a começar por aquele que abre esta obra,
intitulado “O Jogo do Reverso”, são várias as referências à cidade de Lisboa,
tais como o jantar no Tavares e os fados antigos, a “Lisboa dos heterónimos” e
as deambulações pela cidade, o recitar “Lisbon Revisited”, de Álvaro de Campos,
“um poema no qual uma pessoa está à mesma janela da sua infância, mas já não é
a mesma pessoa e já não é a mesma janela, porque o tempo muda homens e coisas”
(p. 23).
Nostalgia, infância, viagens,
evasão, sonho e realidade, vida ou o seu reverso, onde “os cais eram as linhas
de perspetiva que convergiam para o ponto de fuga de um quadro, o quadro
era Las Meninas de Velásquez” (“O Jogo do Reverso”, p. 32), são
tópicos recorrentes nas pequenas narrativas que vão surgindo ao longo desta
obra, com uma “griffe” muito própria, gérmen de iluminação pessoana, a espelhar
o real e o imaginado, ou o seu reverso: uma realidade paralela que acompanha a
realidade visível. Na verdade, a leitura destas narrativas oferece-nos várias
possibilidades como a de viajar até à infância de Ettore, agora Josefine, a
surpreendente revelação, a grande diva. Josefine, nome inspirado numa
reminiscência da infância de Ettore, a palmeira em frente à sua casa (“Carta de
Casablanca”). E, levado pelo desejo de evasão, também é poder chegar ao
continente africano, mais precisamente a Moçambique e, numa terra longínqua, ir
semanalmente ao teatro para ouvir declamar Shakespeare (“Teatro”) ou, ainda, ao
contrário de Fitzgerald, fazer nascer um “Pequeno Gatsby”.
Por outro lado, estes “Pequenos Equívocos
Sem Importância”, mal-entendidos ou quiproquós que vão surgindo na vida do
dia-a-dia e aos quais não se dá grande importância, acabam por ser extremamente
relevantes, sem disso se ter consciência. De facto, foi apenas um «pequeno
equívoco» que acabou por ditar o funesto fim de vida para Federico, quando, ao
efetuar a sua matrícula em Clássicas, lhe foi atribuída, por engano, a de
Jurisprudência. Tratou-se de “um pequeno equívoco sem solução”, “um lapso” que
causou gargalhada geral, muito longe de se imaginar que seria este mesmo “equívoco
sem importância", o responsável pelo trágico destino do jovem Federico. Assim,
por obra do acaso (ou não), assistimos a encontros e desencontros, ao
imprevisível que acontece, um misto de realidade e ficção, pronto a baralhar o
leitor no decorrer de um jogo, o do reverso.
Aqui fica o convite para a
descoberta de uma escrita dotada de características especiais, assente num jogo
de subtilezas, pois que nada é linear. De facto, o leitor vê-se confrontado com
narrativas carregadas de imaginação, imbuídas de mistério e de enigmas, para as
quais não se vislumbra um final palpável. Esse, caro leitor, será o grande
desafio.
Isabel Nunes Oliveira
Docente de Português e Francês
(Representante de Área Disciplinar Línguas Românicas)