Uma Catastrófica Visita ao Zoo, de Joël Dicker, é um dos livros mais surpreendentes do autor: breve e descontraído na forma, mas profundo nas questões que levanta. A história nasce de um episódio simples, uma visita escolar ao jardim zoológico poucos dias antes do Natal, que rapidamente se transforma numa verdadeira catástrofe. Durante anos, o que realmente aconteceu naquele dia permanece envolto em mistério na pequena comunidade dos protagonistas. A narrativa é conduzida por Joséphine, uma ex-aluna de uma escola especial (“Chamamos escola especial a uma escola onde são colocadas as crianças que não vão para as outras escolas.”) que já adulta decide revelar tudo o que se passou e de que modo esse acontecimento marcou alunos, professores, pais e toda a cidade.
“Os meus pais queriam explicações, mas, para lhes explicar tudo, seria necessário explicar que a catastrófica visita ao jardim zoológico se devera ao catastrófico espetáculo da escola, que acontecera por causa da catastrófica peça de teatro, que fora encenada por causa da catastrófica visita ao Pai Natal, que acontecera por causa da catastrófica Santa Bofetada, que acontecera por causa do catastrófico curso de prevenção rodoviária, que acontecera por causa da catastrófica aula de ginástica, que acontecera por causa da catastrófica reunião no anfiteatro, que, por sua vez, acontecera por causa de uma catástrofe inicial.”
No centro desta tempestade narrativa estão, além da narradora, várias personagens peculiares, destacando-se Mademoiselle Jennings, professora dessa turma especial e responsável por um pequeno grupo que inclui Artie, o hipocondríaco; Thomas, apaixonado por karaté; Otto, filho de pais divorciados; Giovanni, invariavelmente vestido com a mesma camisa e herdeiro do próspero negócio familiar do papel higiénico; e Yoshi, que não fala e sonha ser escultor. O diretor da escola desempenha também um papel importante, acompanhado de um elenco secundário composto por pais, uma avó especialista em séries policiais, um falso pai natal que é dramaturgo, um polícia que investiga envergando uma bata hospitalar, um bully, um professor de ginástica acidentado e a dona de uma loja de animais descrita como pérfida.
Apesar do tom humorístico e acessível, o livro aborda temas
relevantes como a participação democrática, os modos de decisão dentro da
escola, a relação entre crianças e adultos e a forma como lidamos com o erro, o
conflito e a diferença. É também uma reflexão sobre a memória e sobre as
múltiplas versões que cada pessoa guarda dos mesmos factos, mostrando como a
verdade é muitas vezes mais complexa do que parece.
Joël Dicker nasceu na Suíça e publicou vários livros que foram
sucessos internacionais e que receberam vários prémios de prestígio. O enigma do quarto 622, publicado em Portugal pela Alfaguara,
merece também muito a pena ser lido.
Dicker escreveu esta obra com a intenção de que pudesse ser lida
por todas as idades, e isso nota-se na fluidez da escrita, no humor (soltei
algumas gargalhadas, confesso!) e na universalidade da narrativa. É uma leitura
ideal para escolas, famílias e clubes de leitura, facilmente integrável em
disciplinas como Português ou Cidadania, pois abre espaço para discutir
inclusão, participação, a relação entre escola e família e os desafios da vida
em comunidade. Ao mesmo tempo, o livro mantém o suspense até ao fim e envolve
até leitores menos habituados à leitura.
E permanece no ar a interrogação lançada pelo livro: E se as
histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender aquilo que há tanto tempo tentam ensinar?
Resta mais uma pergunta que o próprio autor coloca: será possível escrever um livro que possa
ser lido e partilhado por leitores dos sete aos cento e vinte anos?

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